“O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade”

Albert Camus, escritor francês

 

SORTE OU AZAR?

Uma grande armadilha que caímos com certa constância diz respeito a costumarmos acreditar que os acontecimentos em nossas vidas são praticamente todos um jogo de azar. Tipo loteria ou jogo do bicho. Quando falo isso, quero dizer que passamos a atribuir às circunstâncias o fator de sorte ou azar como o principal motivo por algo ter dado certo ou errado conosco ou mesmo com as outras pessoas. E a verdade é essa, fazemos isso com grande frequência, mesmo que de forma inconsciente. Vejamos. Se alguém é bem sucedido em alguma coisa, habituamo-nos a dizer que foi sorte. Se alguém fracassou, mas que azar! Temos uma tendência também a utilizar este critério para justificar o que nos acontece e o que fazemos, sem analisar de fato as situações e as suas reais causas. Costumamos ver a consequência e esquecemos de observar o conjunto de diversos elementos e fatores por trás. E acabamos adotando essa abordagem por ser a mais fácil, a mais simples e a aparentemente mais “lógica” de se acreditar. Afinal, o que quer que aconteça seria questão de sorte ou azar.

CRENDICES E SUPERSTIÇÕES

Vamos por partes. Comecemos sobre a perspectiva do azar. Ah, como ele nos persegue! Ele é sempre o vilão, o maldito e destemido motivo sombrio para qualquer resultado ou fato que julguemos negativo ou desfavorável. Ele é tão poderoso em nossa mente e temos tanto pavor dele, que chegamos, na nossa incompreendida condição humana, a inventar uma série de crendices e superstições totalmente ilógicas para evitá-lo e fugir dele. Por desconhecermos muitas questões de causa e efeito, buscamos explicações não racionais para fenômenos e suas consequências, passando a acreditar na fatalidade para praticamente tudo de ruim que nos acontece. Não cruze com um gato preto, cuidado para não quebrar o espelho, nunca passe por de baixo da escada, jamais veja a noiva pronta antes do casamento, sexta feira treze é perigoso, nunca deixe o chinelo ao contrário. Além disso, ande com um trevo de quatro folhas, com um pé de coelho, bata na madeira três vezes e toque no verde quando alguém falar na mesma hora que você. Sorte no jogo, azar no amor. E vice-versa. Acreditando ou não em crendices populares, somos impactados por elas. Acabamos crescendo com uma visão deturpada sobre sorte e azar. Algumas pessoas mais, outras menos. Mesmo que você afirme não se importar com nada disso.

O que posso dizer… baseado nesse conceito, criamos uma série de rituais e hábitos próprios que passamos a praticar a partir de experiências boas ou ruins que vivenciamos ou que observamos. Às vezes são coisas “bobas”, como usar uma camisa que “deu sorte” pro seu time. Outras mais complexas. Por exemplo, se você falou para alguém que estava participando de uma entrevista de emprego antes de sair o resultado e terminou não sendo contratado, acaba atribuindo de forma aleatória a este fato a culpa: “isso deu azar!”. Em uma próxima situação você acaba não falando para ninguém. E se isso o resultado é o que você esperava, então… Isso vira uma crença poderosa, praticamente uma lei para você. Aí é onde mora o perigo, quando determinadas crenças que criamos nos atrapalham de nos tornarmos quem desejamos e de fazer o que precisamos fazer.

A FAMOSA LEI DE MURPHY

Acredito que você já deve ter ouvido falar na famosa “Lei de Murphy”. Trata-se de uma máxima ocidental que defende basicamente que “se algo pode dar errado, dará (no pior momento possível, da pior forma possível)”. Algumas pessoas, inclusive, dizem ser a própria personificação desta afirmação. Você, por acaso, se identifica ou conhece alguém assim? O que arrisco a dizer é que provavelmente você nem ao menos conheça a história por trás dessa “suposta lei”. Defendo isso pelo fato da maioria de nós termos uma tendência a acreditar nas coisas que nos dizem, de geração por geração, sem de fato questioná-las ou sem buscar evidências e fontes reais que as comprovem. Afinal, acreditamos no que é mais cômodo para nós. Voltemos aos fatos. Basicamente, dizem que Edward Murphy foi um engenheiro aeroespacial americano que realizava um experimento sobre os efeitos da desaceleração rápida em pilotos de aeronaves e precisava entregar os resultados de seus testes. No dia de coletá-los, os equipamentos que registravam a frequência cardíaca e respiração falharam, fazendo com que ele, frustrado, defendesse a sua máxima em uma coletiva de imprensa. Na verdade, um técnico havia feito a instalação… de maneira errada. Um simples teste antes poderia ter evitado uma enorme dor de cabeça.

Acreditamos que essa lei nos persegue. Tudo parece acontecer no momento em que temos algo importante e que o universo simplesmente conspira contrário a nós. Se perdemos o ônibus para viagem, foi azar, já que [saímos em cima da hora e] pegamos um trânsito por conta de um acidente. Se deixamos para fazer um relatório no último dia do prazo, foi azar, já que nosso computador quebrou e perdemos o arquivo [que esquecemos de fazer backup]. Percebeu algo? Utilizarmos o azar como justificativa maior, já que ele nos exime da parcela de culpa e tira nossa responsabilidade sobre os fatos, porque parece ser mais simples e fácil. Esquecemos da nossa falta de prudência, de precaução e de antecipação aos acontecimentos. De utilizar e manipular fatores ao nosso próprio favor para aumentar nossas chances de sucesso. Calma, o azar existe. Mas a probabilidade dele é mínima. É isso que temos que ter em mente. Você não pode sair dizendo por aí que jogou na loteria uma única vez e teve um grande azar porque não ganhou o prêmio. Percebe? Isso é uma profunda e importante reflexão.

PUXA, MAS QUANTA SORTE!

Agora falemos sobre a crença na sorte e como ela também está impregnada em nossas mentes. Em primeiro lugar, recorremos a ela quando esperamos um resultado positivo no futuro. Por exemplo, quando alguém vai fazer uma prova, um curso, participar de uma seleção, de uma entrevista de emprego, ter uma reunião com um possível cliente e até mesmo quando vai para um encontro amoroso. O que desejamos? O famoso: “boa sorte!”. Estranho, não? Por que não desejamos uma boa prova? Ou um bom desempenho? Se a pessoa a quem falamos estivesse preparada de fato para a situação, por que precisaria tanto assim da sorte? Isso já é uma pista da força do nosso velho hábito. Segundo, a tendência de aplicar a sorte como principal causa de algum resultado positivo. Imaginemos que determinado rapaz, ainda jovem, passasse em um prova de concurso para um cargo extremamente concorrido e tivesse a sua “vida feita”. As pessoas, provavelmente, iriam comentar: “nossa, como ele teve sorte na vida!”. Por mais bizarro que isso seja, é isso que costumamos pensar a respeito de muitas coisas. Qual o maior problema disso? Esquecemos de enxergar tudo o que levou a concretização dos fatos, o conjunto de: cenários, atitudes, determinação, empenho, dedicação, habilidades desenvolvidas, prática, estudo, capacidade cognitiva, metas claras, estratégias traçadas e uma série de outros tantos fatores. Esquecemos de pensar que não foi sorte, algo da noite pro dia. Foi um conjunto e sucessão de atitudes e eventos que contribuíram para o cenário positivo. O que ele teve que abrir mão, o que ele precisou fazer para realizar seu sonho. Ou você acha que ele teria chance de fazer a prova sem nada disso? Tirar a nota para passar em um concurso concorridíssimo sem toda uma preparação, até mesmo psicológica, seria uma chance infinitamente mínima elevada ao cubo.

Se alguém consegue o emprego dos sonhos, foi sorte. Se alguém se torna famoso, que sorte! Se uma empresa fatura bilhões, teve muita sorte. Se alguém encontra o seu futuro sócio em uma palestra, quanta sorte. Se alguém arranja um bom marido/boa esposa, tirou a sorte grande. Se nasceu em um “berço de ouro” e teve acesso a muitas facilidades, a maior sorte todas! Costumamos repetir essas justificativas de forma frequente e incansável não só para os grandes acontecimentos da vida, como também para praticamente qualquer situação corriqueira e banal que enfrentamos. Independentemente disso ser maneira de falar ou não, passamos a acreditar nisso internamente. E onde está a armadilha? Tendemos a usar tudo isso como desculpa para nossos sucessos e fracassos. Há uma tendência natural do ser humano em acreditar que o elemento fundamental e mais importante do sucesso de alguma pessoa está relacionado à sorte do privilégio (acesso a meios, instruções, métodos, rede de contatos). O privilégio não deveria, de forma alguma, ser associado a um fator determinante para alcançar algum objetivo, apesar de oferecer uma situação mais favorável ou de vantagem, sem sombra de dúvida. Se seu cenário não está favorável, trate de mudá-lo. Esquecemos de encarar a vida como um grande jogo de probabilidades, no qual exercemos um papel crucial e fundamental, tanto nas decisões, como nos desempenhos que obtemos ou podemos obter. Superestimamos o acaso (a sorte/azar) e subestimamos o nosso poder de escolha e de influência sobre os nossos resultados. E isso nos paralisa, nos enfraquece e nos oferece uma postura, muitas vezes, passiva diante da vida: esperar que um dia a “sorte” chegue ou viver “injustiçado” pelo azar. É claro que não podemos manipular nossa vida inteira e sermos mestres do nosso destino. Isso é infinitamente impossível e não é isso que estou dizendo aqui. O que defendo é que podemos tomar escolhas e atitudes que nos favoreçam de acordo com nossos objetivos. Isso aumenta as nossas chances de “fazer dar certo”, isso é aprender a jogar com a probabilidade.

JOGANDO COM A PROBABILIDADE

E o que isso quer dizer exatamente? Bom, vamos às origens. A palavra probabilidade deriva do latim, probare, que quer dizer provar ou testar. Está relacionada a calcular as chances de um determinado evento acontecer, levando em consideração os fatores que interferem a favor e contra este resultado esperado. Buscar conhecer os riscos e saber calculá-los, além de criar um cenário favorável para que as oportunidades “apareçam” é a forma mais sábia de encarar a vida e esperar o sucesso como resultado. Cuidado! Temos uma tendência também a alimentar em um ciclo vicioso nossos hábitos improdutivos para continuar falhando e defendendo a nossa crença na sorte/azar, sem perceber, de forma inconsciente. Assim, tendemos a acabar lidando (contra nossa própria vontade) com as pessoas erradas, nos lugares errados e nas horas erradas. E aí podemos justificar: “Tá vendo, deu errado, eu sabia! Sou sempre azarado.” Acabamos encurralados nas nossas próprias armadilhas. Calma, eu sei, não podemos eliminar a fatalidade, de fato. Ela pode acontecer, jamais estaríamos imunes a ela. Um acidente, uma tragédia, um grande imprevisto, um novo obstáculo… Seja pela lei da natureza ou por uma falha humana, mecânica, etc. É claro que podem aparecer em qualquer momento, de forma totalmente inesperada. Mas mesmo assim, o que podemos fazer é cuidar para que haja uma diminuição nos riscos e aumento nas chances favoráveis. Saber que isso pode acontecer e aceitar é uma coisa, mas viver paranóico nunca será uma boa saída. Além disso, as falhas e fracassos não devem ser encarados de todo como negativo, já que preparam o terreno e nos aproximam dos nossos objetivos. Falhar nas tentativas é se aperfeiçoar no que fazemos, é aumentar nossa probabilidade de sucesso.

Imaginemos que estamos procurando um emprego e saímos atirando para todos os lados, enviando mil currículos para qualquer vaga. Será que isso é mesmo produtivo? Ou você está desperdiçando energia, foco e diminuindo as probabilidades de conseguir o que realmente deseja e espera? Lembre-se que qualidade e quantidade são coisas muito diferentes. Não passamos nas entrevistas  ou conseguimos empregos ruins e a culpa é do azar. Esquecemos de definir nosso perfil, nossas competências, habilidades, conhecimentos, capacitações, paixões e tudo que nos levaria a desempenhar uma boa função no cargo. Além disso, todo e qualquer critério conta! Tendemos a desconsiderar fatores como um bom aperto de mão, uma linguagem corporal positiva, aparência, desempenho, desenvoltura… O mais importante a se fazer é se questionar, “o que as pessoas que conseguiram o que eu quero conseguir (ou parecido com isso) tinham ou tem? O que eu preciso fazer? Como posso trabalhar os fatores para aumentar minhas chances de obter êxito? Como contornar as adversidades que aconteceram e vencer minhas próprias barreiras mentais, físicas e emocionais?”… Essas são algumas perguntas poderosas e desafiadoras, ao invés do foco em crenças limitantes como “eu sou azarento, eu não tenho sorte”. Se algo está dando errado, provavelmente você está apostando nas fichas e estratégias erradas. Está na hora de mudar isso. Não foque nas dificuldades (financeiras, deficiências, etc.) que você tem, é preciso trabalhar para buscar contorná-las, superá-las e criar um cenário favorável para si. Incansavelmente.

DEPOIMENTO

Assim que terminei minha segunda graduação, em Design, enfrentei um período muito difícil. Estava desempregada, sem dinheiro e sem perspectivas; além de frustrada e desmotivada, pra variar. E é claro, me sentindo em uma terrível maré azar. De não receber uma ligação se quer para agendar entrevista (dos 10 currículos enviados), de ter escolhido uma profissão com um mercado muito difícil, de ter falhado em um projeto de startup que havia entrado, de ter encontrado um sócio “problemático”, de ter sido reprovada na primeira seleção de mestrado que havia tentando, e por aí continuava. Além disso, como estava com a cabeça quase se transformando em um liquidificar no modo máximo, perdia meus pertences em qualquer lugar, esquecia de compromissos importantes e passava muito tempo em casa assistindo televisão e refletindo sobre a vida… em como eu era uma pessoa azarada e infeliz. Olhava para as pessoas que tiveram sucesso, com um certo ar de inveja, e afirmava que elas tiveram muita sorte. Sorte de qualquer coisa. Sorte de serem ricas, sorte de terem privilégio, sorte de terem contatos importantes, sorte de um negócio ter dado certo e por aí vai. Bom, continuando. Decidi começar uma especialização em comunicação e marketing em mídias digitais na época e pouco tempo depois, as portas começaram a se abrir. Lá encontrei uma parceria com quem desenvolveria uma nova startup que trabalhei por alguns meses. Visitando uma agência de um colega, que também estudava na pós, e conversando sobre o projeto dessa nova startup, houve interesse pelo meu perfil. Estavam procurando um estagiário em processo seletivo e simplesmente cancelaram o processo para me contratar. Nossa, que sorte! Será? Comecei a refletir. De repente muitas coisas começaram a dar certo e percebi que elas aconteceram devido a um grande empurrão meu. Analisei as situações e percebi que quanto mais eu buscava a sorte, mais eu a tinha. Passei um tempo saindo para eventos no meu setor, conhecendo novas pessoas, fazendo cursos online, entrando em grupos de mídias sociais.. E as oportunidades continuavam a aparecer. Muitas vezes, estava na minha frente. Tudo que precisava era de uma palavra, de uma apresentação, de uma inscrição, de uma conversa.. Quanto mais eu me mexia, mais sorte eu tinha. E você? Como anda sua sorte?

MINUTO DE REFLEXÃO

Como diria Anthony Robbins, “o encontro da preparação com a oportunidade gera o rebento que chamamos de sorte”. Faço uma pergunta: você tem jogado com a probabilidade ou simplesmente tem esperado o lançamento dos dados para “ganhar na sorte”? Um conselho: procure e crie incansavelmente a sua própria sorte todos os dias de sua vida. Não espere por ela, pois ela dificilmente virá ao seu encontro. Faça ela acontecer.

PRATIQUE! PEQUENO EXERCÍCIO

  1. Conscientização: Divida uma folha no meio e liste na esquerda três rituais para dar sorte que você costuma praticar. Do lado direito, anote três coisas nas quais você acredita ser uma pessoa realmente azarada.
  2. Reflexão: tente analisar, refletir e ressignificar cada uma dessas frases, analisando os fatores que existem por trás de cada afirmação e substituindo o que anotou por uma crença fortalecedora.
  3. Ação: faça um monitoramento nos próximos 7 dias de como você fala que algo foi sorte ou azar no seu cotidiano e evite ao máximo utilizar esses fatores como causas para as coisas que lhe acontecem. Um outro desafio! Comece quebrando e desafiando seus rituais e crenças. Se acha, por exemplo, que passar por de baixo de uma escada dá azar, então comece a passar por debaixo sempre que ver uma! Dessa vez, não vou lhe desejar sorte, não é disso que você mais precisa.

MODELAGEM DE MINDSET

CRENÇAS LIMITANTES

  • “Eu não tenho/tive sorte (em uma situação ou na vida)”
  • “Fulaninho é um sortudo”
  • “Eu sou uma pessoa azarada, tudo dá errado comigo”
  • “A Lei de Murphy me persegue”

CRENÇAS PODEROSAS

  • “Eu não aguardo a sorte, eu crio minha própria sorte”
  • “Eu não espero a oportunidade um dia aparecer na minha porta. Vou atrás da oportunidade e procuro as portas certas para bater”
  • “O sucesso na vida não é uma questão de sorte, muito menos de azar. É de saber jogar com a probabilidade”
  • “Meu sucesso depende infinitamente mais de mim e das minhas próprias atitudes frente às dificuldades do que da minha sorte”

 

IMAGEM por Freepick © copyright

TEXTO por RAQUEL RODRIGUES  © copyright Todos direitos reservados