Saiba que são suas decisões e não suas condições que determinam seu destino

Anthony Robbins, escritor e palestrante motivacional americano

 

O PAPEL DE VÍTIMA

Lá vamos nós conhecer uma outra armadilha que caímos com uma grande frequência. O mundo das reclamações e da vitimização. Tentador, diga-se de passagem! Provavelmente você deve conhecer alguém que passa o tempo todo reclamando de tudo e de todos, praticamente nunca satisfeito com nada nem ninguém. Ou alguém que repita como um disco arranhado o quanto é injustiçado, frustrado e o quanto tudo de ruim acontece consigo. Seja tanto em um caso como no outro, temos um pouco desses hábitos; algumas pessoas mais, outras menos. Vamos analisar um pouco esses cenários.

SOMOS UNS RECLAMÕES

Reclamar é um hábito muito comum do ser humano. Sim, cada um possui necessidades e desejos característicos, de maneira única, personalizada e bastante específica; tudo isso baseado nas próprias experiências de vida, nas suas relações com os outros, nos seus valores e crenças, entre diversos e tantos outros fatores. E o que acontece quando algo não ocorre como o previsto, quando alguém faz algo diferente do que esperamos, quando as coisas não são como gostaríamos que fossem ou quando não atendem às nossas expectativas e ao nosso nível de exigência? A resposta é clara e óbvia: reclamamos. Quando fazemos isso, passamos também a cobrar e a exigir mudanças. Queremos que as coisas passem a ser do jeito que imaginamos que fossem e não o contrário. Mas infelizmente isso não acontece como em um passe de mágica.

Reclamamos das pessoas. Esperamos que elas sejam, façam, digam e sintam determinadas coisas. Que elas se comportem do jeito que achamos que é certo e melhor para elas, para nós mesmos e para a sociedade. Cobramos atitudes, respostas, atenção, resultados, relações, experiências e tudo que tivermos direito. Reclamamos dos comportamentos dos nossos filhos, dos pais que não nos entendem, do marido que não ajuda nas tarefas do lar, da esposa que não para de reclamar, da postura do chefe com os funcionários, do vendedor que não nos atende bem, da empresa que oferece um produto ruim, de um amigo que esqueceu nosso aniversário, de um colega de trabalho que não lhe ajuda, e por aí vai. Reclamamos de nós mesmos e da vida. Do lugar que moramos, do emprego que possuímos e não gostamos, da nossa situação financeira apertada, da textura do nosso cabelo, do corpo que temos, dos bens que não temos, da genética que não favoreceu, das nossas limitações. Além disso, da cidade, da internet, da chuva, da roupa, da violência, da fome, da desgraça, da guerra, da política, do time, da dor e mais e mais. Parece uma sessão de filme dramático depressivo daqueles de cortar os pulsos: o mundo é cruel, onde reina o caos e a desgraça; a vida é muito árdua e complicada; as pessoas são complexas e extremamente difíceis de se compreender e lidar… Que coisa, não? Somos uns “reclamões”, diga-se de passagem.

UM BALANÇO DAS NOSSAS QUEIXAS

Mas se parássemos para analisar o quanto reclamamos de tudo e tivéssemos que fazer um balanço, imagine quanto tempo da vida perdemos? Reclamar é tentador, parece ser a forma mais lógica e correta de exigir nossos direitos ou esperar melhorias em nossas vidas. Entretanto, esquecemos é dos nossos deveres, do poder das nossas ações ou do que deixamos de fazer para conseguir o que queremos. Quando reclamamos demais tomamos uma atitude passiva agressiva diante da vida, ou seja, cobramos dos outros e das coisas sem necessariamente fazer algo de positivo a respeito. Queremos, exigimos, brigamos, reclamamos, cobramos, batemos o pé e, às vezes, até chantageamos, dramatizamos e culpamos. Parece até que estamos lidando com uma criança birrenta. Incorporamos isso da nossa infância, dos comportamentos que temos como exemplo, do modelo mental das pessoas com as quais convivemos ou aprendemos (pais, familiares, professores, colegas, etc.). Mas e o que fazemos? Muitas vezes, praticamente nada. Nos vemos como os prejudicados, lesados, desvalorizados, incompreendidos e vitimizados. Exercemos uma postura na vida que nos leva, na maior parte das vezes, para uma situação oposta àquela que queremos, projetando o problema externamente a nós mesmos. Agimos na defensiva e nos cegamos às possibilidades. Temos uma enorme dificuldade de receber e dar feedbacks úteis, de ganhar e fazer críticas construtivas e de enxergar o mundo e as pessoas ao nosso redor como parceiros e não como nossos piores inimigos. Temos uma enorme dificuldade em quebrar padrões, mudar comportamentos e crenças, presos em nossas próprias emboscadas. Acabamos alimentando e nutrindo sentimentos negativos e agressivos, chegando aos resultados desfavoráveis que tanto fugimos.

O GRANDE PAPEL DE VÍTIMA

Chegamos no próximo cenário, o famoso papel de vítima. Esse eu já pratiquei bastante, tive até umas recaídas ao longo dos anos, mas consegui aprender a lidar com ele e afugentá-lo da minha vida. Espero que você também o faça, caso o pratique. Nós temos, infelizmente, uma tendência natural em focar sempre no problema. Tudo que nos causa insatisfação, que parece estar ruim, dando errado, funcionando mal ou seja o que for. Às vezes, nos cegamos e enxergamos somente os aspectos negativos e desagradáveis, estes que reclamamos tanto que acabamos contaminando e minando nossas relações com os outros e com o meio em que vivemos. Mais uma vez, mesmo inconscientemente, nos afastamos de ser quem desejamos: uma bom pai, uma filha exemplar, um funcionário motivado, um marido companheiro, uma mãe dedicada, um amigo parceiro… Lamuriar-se, vitimizar-se e reclamar, por pior que possa ser ou parecer a situação, só vai ajudá-lo a levar para um único lugar: o fundo do poço. Esses comportamentos atraem sentimentos nocivos e destrutivos, tais como: irritação, estresse, raiva, mágoa, tristeza, infelicidade, indignação, repúdio, depressão e tantos outros. No final das contas, você se torna o que alimenta. E eu aposto que você não deseja sentir nada disso.

O papel de vítima vive repetindo aquela velha máxima “Ó, céus, ó vida, ó azar…”. É quando tudo de mal sempre acontece conosco e nos sentimos exatamente como se não pudéssemos fazer nada a respeito, somos impotentes e prejudicados. Questionamos o tempo todo, mas de forma errada: “por que isso só acontece comigo?”, “por que comigo tudo dá errado?”, “por que ninguém me dá uma chance?”. É como se o mundo girasse em torno de nós mesmos e ao mesmo tempo fosse o grande culpado por todas as nossas mazelas e sofrimentos. Quanta pretensão a nossa, não é mesmo?! Muitas vezes, parece até uma competição. Quando alguém descreve como algo está dando errado na própria vida, outra pessoa mostra como é muito pior o seu caso. Nessas horas, a grama do vizinho sempre parece ser mais verde, e os seus problemas são sempre os piores, os mais terríveis. Algumas pessoas focam nisso de forma demasiada. Encontram com alguém e já estão falando sobre todas as suas mazelas, dificuldades, doenças, problemas, desgraças… Afinal, é como se precisássemos exaltar nosso papel de vítima e de pobres coitados para não assumirmos a responsabilidade de nossa vida, do nosso poder e capacidade de mudar. Parece loucura, não é? Mas é real.

EDITANDO O ROTEIRO DA NOSSA VIDA

Na verdade a solução não é ignorar os problemas. Muito menos reclamar deles ou culpá-los! Antes sim, é preciso mudar a nossa atitude diante deles. Ou ele toma conta de nós e somos vencidos por eles ou nós buscamos alternativas para solucioná-lo e vencê-los. É claro, você pode continuar reclamando dizendo que já tentou de tudo que estava ao seu alcance e não tem jeito nenhum, e assim o ciclo vicioso se repete, rumo ao infinito e além. Se me permite dizer algo, temos solução para tudo nesta vida, menos para a morte. A vida segue seu curso, ela não espera por ninguém. Então você deve decidir se vai ficar reclamando da vida que tem e se vitimizando ou fará algo a respeito para mudar e melhorar a situação e sua própria realidade. Veja, não importa de quem é/foi a culpa ou o que lhe aconteceu. O que importa é o que você faz com o que você tem. Se está frustrado, triste, chateado e insatisfeito com o que lhe acontece, troque a abordagem. Mude a forma de tratar o assunto, troque a perspectiva e encare as coisas de maneira diferente. Procure focar em como você pode contribuir para melhorar a sua vida e o meio que você vive. Assuma de vez a responsabilidade de que você tem o controle dos seus pensamentos e ações. Assim, se pensar e agir diferente, terá resultados diferentes. Como diria Einstein, “loucura é fazer continuamente a mesma coisa e esperar resultados diferentes“. Podemos ser apenas figurantes no grande palco que chamamos de vida, ou podemos ser os atores principais. Ou melhor ainda! Podemos ser diretores! Editando a nossa história, mudando o roteiro, convocando novo elenco. Tomando todas as ações necessárias que pudermos para simplificar, facilitar e melhorar nosso próprio papel na vida e na sociedade, potencializando os nossos próprios resultados. Faça sempre perguntas poderosas como “o que eu posso fazer para mudar essa situação?”, “que novas estratégias posso adotar para mudar meus resultados?”, entre outras.

DEPOIMENTO

Certa vez, fui selecionada em um projeto nacional para trabalhar com consultoria em inovação no Sebrae. Participei de um treinamento extensivo para ir à campo, prospectando e acompanhando empresas no ramo industrial. Trabalhar com consultoria era algo que eu me fascinava. Que oportunidade incrível, que experiência maravilhosa! O que dariam para estar no meu lugar, heim? Não foi tão maravilhosamente assim que reagi, eu mesma me sabotei. Com comportamento de vitimização que desenvolvi e arrastei ao longo de anos, sem ter conhecimento disso, arranjava sempre um jeito para focar nos problemas e no lado negativo de tudo, destruindo minhas oportunidades e minhas chances de sucesso. E ainda me questionava por que tudo dava tão errado. Logo, logo, passei a reclamar das metas impostas, da gasolina que gastava, das empresas que não fechavam negócio, das ferramentas que não funcionavam e de toda e qualquer dificuldade que via no caminho. E eu só enxergava isso. Passei a me sentir cobrada, desmotivada, estressada, chateada e frustrada. Certo dia, em uma reunião com meu consultor sênior, levei uma grande lição que soou como um tapa na cara, do tipo: “Alô, acorda pra vida, menina!”. Fazendo o balanço mensal, eu falava somente sobre as dificuldades, sobre todos os enormes problemas e como tudo era difícil, complicado e impossível. Depois de tanto me ouvir, ele simplesmente me deu um fora. “Já chega Raquel. Desde que você chegou, só falou dos problemas. Já ouvi e já entendi. Mas não vi você apresentando uma solução sequer! Da próxima vez que for dizer algo, é isso que deveria fazer”. Na mesma hora, um balde de água fria. Esse foi um dos grandes aprendizados que tomei na vida. Depois disso, passei a refletir sobre essa minha atitude no passado e como havia impactado em outras situações de forma extremamente negativa. Descobri, finalmente, a melhor coisa a se fazer: nunca focar no problema, mas, sim, na solução. E se ela ainda não existe, descobrir! Esse é o desafio da vida. E assim vos lanço também esse desafio.

MINUTO DE REFLEXÃO

Paulo Coelho já dizia: “As pessoas reclamam muito, mas se acovardam na hora de tomar providências. Querem que tudo mude, mas elas mesmas se recusam a mudar“. Você se acha uma pessoa tolerante, flexível e adaptável às pessoas e ao mundo ou vive exigindo que tudo seja do seu jeito, da maneira que você gostaria que fosse? Você tem focado ultimamente nas dádivas e presentes da sua vida ou nos aspectos ruins e negativos? Você reclama constantemente de tudo e de todos e se vê como injustiçado e incompreendido ou você é proativo e corre atrás daquilo que prega e acredita? Pare e pense. Tudo na vida tem dois lados, aspectos negativos e positivos. Podemos escolher focar nos espinhos ou na beleza das rosas. O que vai preferir e praticar?

PRATIQUE! PEQUENO EXERCÍCIO

  1. Conscientização: está na hora de fazer um balanço das suas queixas. Quais são as cinco que você repete com mais frequência e que mais afetam você diretamente para impedir-lhe de ser quem deseja?
  2. Reflexão: que papel você possui em cada uma dessas queixas e como contribuiu para que cada situação acontecesse? Que atitudes está tomando que não estão funcionando ou talvez prejudicando ainda mais a situação? que novas estratégias e abordagens você poderia tomar? Que iniciativas diferentes você poderia ter ou o que poderia evitar fazer para melhorar cada uma dessas situações?
  3. Ação: Experimente, pelos próximos 15 dias, parar com toda e qualquer reclamação. Use uma âncora para lembrar e mudar imediatamente o estado emocional (por exemplo, um elástico no pulso. Quando se pegar reclamando de algo ou alguém, puxe o elástico para bater no pulso e mude o padrão mental. Pare a reclamação e foque no aspecto positivo).

MODELAGEM DE MINDSET

CRENÇAS LIMITANTES

  • “Por que tudo dá errado comigo? Por que tudo é tão difícil, chato, sofrido e doloroso?”
  • “Por que ninguém nunca me entende? Por que tenho tantos problemas na vida?”
  • “Sinto-me, muitas vezes, como injustiçado, prejudicado, desvalorizado e vitimizado”
  • “Sinto que a grama do vizinho é sempre mais verde que a minha”
  • “Tudo é muito difícil e complicado. Nada na minha vida é do jeito que deveria ser”
  • “Se quero algo bem feito, faço eu mesmo. As pessoas dificilmente fazem algo que preste”

CRENÇAS PODEROSAS

  • “Eu tenho responsabilidade pelos meus pensamentos, sentimentos e atitudes, consequentemente pelos meus resultados. Se quero resultados diferentes, preciso pensar, sentir e agir diferente”
  • “São minhas escolhas e decisões de vida que mais contribuem para eu ser e ter o que sou e tenho hoje. Se quero mudar algo, preciso mudar primeiro a mim mesmo e a minha postura diante das pessoas e do mundo”
  • “O maior problema não está no problema em si. Está no que eu faço com ele, minhas atitudes diante dele e como busco soluções para resolvê-lo”
  • “Nunca focar no problema, mas, sim, na solução”

 

IMAGEM por Alekksall | Freepik © copyright

TEXTO por RAQUEL RODRIGUES  © copyright Todos direitos reservados