“Cada sonho que você deixa para trás, é um pedaço do seu futuro que deixa de existir”

Steve Jobs, empreendedor e visionário americano

 

O GANHO IMEDIATO

E lá vamos nós para outro grande autossabotador que vem chegando como uma pequena bola de neve e se transforma em uma verdadeira e terrível avalanche, destruindo objetivos, metas e sonhos como um grande trator demolidor. Ele mesmo: o prazer por ganhos imediatos. Mas é claro! O ser humano, por si só, vive em uma eterna e extravagante necessidade insaciável e devastadora de satisfazer seus próprios desejos, instintos e prazeres. E buscamos isso de várias formas: adquirindo bens, consumindo produtos, provando experiências, relacionando-nos com pessoas, desenvolvendo habilidades… comendo, bebendo, saindo, viajando, sentindo, vivendo… Até aí tudo bem. Mas onde está o problema disso? É quando os ganhos imediatos nos atraem e nos seduzem de forma a prejudicar ou aniquilar tudo aquilo que mais desejamos alcançar: quem e o quê gostaríamos de ser, ter e fazer na vida.

PRINCIPAIS ARMADILHAS

Todos nós caímos nessa armadilha, isso não é segredo algum. Vamos começar refletindo e buscando as causas da nossa recaída por ganhos imediatos. A verdade é que não somos nem fomos treinados e instruídos durante nossas vidas para tomar medidas e atitudes conscientes, consistentes e persistentes em relação àquilo que queremos. Isto é, quando sabemos o que queremos de forma clara e objetiva. Temos uma enorme dificuldade em enxergar a longo prazo e fazer “sacrifícios” para realizar objetivos, quaisquer que sejam eles. Queremos: emagrecer sem precisar mudar a alimentação e sem realizar atividades físicas regulares, desenvolver habilidades sem precisar praticar até exaustão, adquirir conhecimento sem precisar estudar muito, comprar bens sem ter dinheiro e acabar se endividando, ter um relacionamento saudável sem precisar cultivar hábitos construtivos, entre outros. E porque isso acontece? Por algumas razões, vamos checar.

a) HÁBITO CONSTRUÍDO E REPLICADO

A primeira coisa é que se trata de um hábito adquirido, repetido, desenvolvido e instalado no nosso subconsciente desde a infância. E, infelizmente, somos incentivados a criá-lo e praticá-lo, arrastando o comportamento de predileção por ganhos imediatos em nossas vidas. Vamos relembrar do famoso teste do marshmallow, realizado na Universidade de Stanford (EUA), na década de 60. Foram colocadas crianças individualmente dentro de uma sala. Os psicólogos pesquisadores deixaram um doce na frente delas e fizeram uma proposta: “você pode comer ele agora ou esperar eu voltar daqui a pouco. Se esperar, você ganhará dois doces ao invés de um”. E pronto. Ver os rostinhos das crianças era algo tão divertido quanto torturador. Adivinhem o que aconteceu? Apenas cerca de um terço das crianças aguentava esperar. O restante comeu o doce sem pensar muito. Afinal, ele estava por ali dando sopa. Mas não para por aí. Os pesquisadores decidiram acompanhar o desempenho escolar dessas crianças nas décadas seguintes. Aquelas poucas que haviam esperado, acreditem ou não, foram as que apresentaram melhores resultados na escola (e, provavelmente, também na vida). Esquecemos de nos questionar, de nos policiar e de trabalhar para mudar de fato nossa realidade, buscando cultivar hábitos de paciência, persistência, resiliência, foco, disciplina e autocontrole. Vamos aprofundar nestes temas mais adiante.

b) LEI DO MERNOR ESFORÇO

Outro aspecto, certamente, é que vivemos na lei do menor esforço. Uma coisa é certa, buscamos o melhor e maior resultado através do caminho mais curto, fazendo o mínimo de esforço possível. Por exemplo, é mais fácil ganhar na loteria do que ralar para ganhar dinheiro e é mais fácil fazer uma dieta maluca e inconsequente para perder peso rápido. Sim, bem mais fácil. E somos sempre atraídos e hipnotizados por isso. Mas do mesmo jeito que vem fácil, vai-se fácil. A maior parte dos ganhadores em loteria ficam pobres em poucos anos e as pessoas que perdem peso muito rápido, de forma não saudável, facilmente acabam ganhando vários quilinhos de volta. Curioso, não? Entretanto, o que posso dizer… Tudo que é construído sem bases sólidas e sem um comprometimento na busca pela melhoria contínua, tende a se estagnar ou mesmo retroceder. Sem o cultivo de atitudes e ações diárias que levam à excelência, é impossível sustentar os melhores resultados – aqueles desejados –, seja nos relacionamentos, na vida pessoal ou profissional. Entretanto, não podemos confundir com “ter que fazer mais”. Esquecemos de pensar em termos produtivos: fazer menos, porém melhor. Temos dificuldade em buscar estratégias mais assertivas, certeiras e eficientes.

c) IMPACIÊNCIA E EMERGÊNCIA POR RESULTADOS

Outra questão é que somos seres totalmente impacientes e emergenciais, buscando resultados instantâneos a partir de pequenas fórmulas mágicas. Afinal, queremos tudo para ontem! Quando realizamos um esforço, se não enxergamos benefícios rapidamente, tendemos a desistir e abandonar o que estamos fazendo. Quando as recompensas demoram a aparecer, perdemos a motivação, o estímulo e a dedicação pelo que deveria ser feito. Mas isso é óbvio, gostamos de ganhar e logo, de preferência. E quem gosta de esperar ou perder? Além disso, quando falhamos na tentativa ou encontramos obstáculos e dificuldades no caminho, então… Aí já era. Quantas vezes você já passou por isso? E quantas vezes já criou ou associou uma nova crença limitante? “Ah, mas é muito difícil, dá muito trabalho”… “não consigo, não dá para mim”… “não funciona, não dá/deu certo”… E assim, novamente, de maneira sórdida, passamos a alimentar a nossa autossabotagem.

d) DIFICULDADE DE ENXERGAR A LONGO PRAZO

Outro grande problema é que temos uma enorme dificuldade de estabelecer objetivos bem definidos em nossas vidas. Muitas vezes sabemos o que NÃO queremos, mas não temos clareza ou certeza do que realmente gostaríamos. E sem saber para onde se deseja ir, qualquer caminho pode servir… os resultados podem não ser aqueles que esperávamos. Além disso, nossa maior dificuldade está em conseguirmos enxergá-los a longo prazo, pensando nos resultados em três, cinco, dez ou mais anos. Podemos criar até crenças associadas: “muita coisa vai mudar daqui pra lá”, “eu vivo hoje e agora, o amanhã é depois”, “prefiro aproveitar a vida fazendo o que eu quero hoje”, e por aí vai. Tomamos diariamente atitudes para resolver problemas imediatos, apagando o fogo quando aparece, tapando o sol com a peneira e jogando poeira debaixo do tapete. Ficamos tão imersos em nos nossos problemas e dificuldades presentes que dificilmente separamos tempo para refletir, planejar e arquitetar planos, criando visão de futuro e adotando estratégias eficazes para realizá-los. Ou, então, pensamos no futuro como uma grande crise, sofrendo medo e ansiedade por considerá-lo um terreno pantanoso, perigoso, incerto e negativo. Mas, como dizia Helen Keller, “evitar o perigo não é, ao longo prazo, tão seguro quanto se expor ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada“. E às vezes até sabemos o que queremos, mas parece ser tão grandioso, tão difícil, tão distante e inatingível que continuamos vivendo nos campos dos sonhos platônicos, como se nunca fosse possível atingi-los.

e) FALTA DE COMPROMETIMENTO

Um outro grande empecilho é que temos uma tendência a não manter nossa própria palavra, a não sermos comprometidos com nós mesmos e com nossos objetivos. Acabamos tomando medidas e atitudes que prejudicam, mais para frente, a nossa saúde, nossas finanças, nossos relacionamentos, nossos desempenhos, objetivos, metas e sonhos como um todo. O maior problema disso é que nossos resultados dependem direta e irrefutavelmente das ações que realizamos hoje, no tempo presente, executadas de maneira contínua e persistente. Contudo, tendemos a adiar ou boicotar tudo o que podemos e não podemos de forma inconsequente e interminável. Na maior parte das vezes, teimamos em continuar alimentando sentimentos nocivos, hábitos de sabotagem, atitudes improdutivas, crenças limitantes e comportamentos (auto)destrutivos. Ou, simplesmente não fazemos nada, encorajamos a preguiça ou esperamos que um dia tudo vai se resolver e melhorar. Muito estranho, mas aquele “um dia” parece simplesmente nunca chegar.

OS SABOTADORES DO PRAZER 

Estamos nos sabotando e boicotando quando, inconscientemente, criamos dificuldades, empecilhos, obstáculos e problemas para realizar nossas tarefas, nossos compromissos, sonhos, metas e objetivos. Temos uma forte tendência em associar o prazer e a dor àquilo que fazemos, sentimos e vivemos. Isso porque para alcançarmos o que desejamos, precisamos passar por situações difíceis, chatas, maçantes, “desagradáveis”… como fazer coisas que não gostamos, abrir mão de algo que queremos ou ter que fazer algum tipo “sacrifício”. E o que acontece? O objetivo passa a ser, ao mesmo tempo, tanto o ápice da realização e do prazer extremo como o martírio e o caminho para o inferno. É quase isso. Parece uma cena de desenho animado. Aquela briga interna que mantemos constantemente com os personagens “anjinho” e “diabinho” (tentação), o conselheiro que chega para acabar com a nossa festa e alegria. Tendemos a nos render às facilidades e aos ganhos imediatos e secundários como forma de nos recompensar pela possível dor que o nosso real objetivo pode nos causar. E, assim, caímos nas nossas próprias armadilhas, como uma certa forma de arranjar um prêmio de consolação.

Em resumo, é assim que acontece. No momento da sabotagem, sentimos um grande prazer. Por exemplo, a delícia e o sabor de se comer uma sobremesa maravilhosa cheia de carboidratos (quando estamos fazendo dieta para emagrecer) ou de se comprar uma bolsa ou sapato novos (quando queremos economizar para uma viagem). E logo em seguida, mudamos os sentimentos e o estado de espírito: passamos a sentir culpa, sensação de vazio, frustração, irritação e ansiedade, já que acabamos boicotando o que queríamos de fato. Assim, estabelecemos uma enorme cobrança interna, castigando-nos mentalmente como essas sensações negativas, como se fôssemos sadomasoquistas, fazendo chantagens com nós mesmos. E em seguida nos fazemos promessas e inflamos os mesmos discursos de sempre: “foi só dessa vez, da próxima será diferente”, “não vou fazer mais isso”, “agora é sério, é pra valer”, “semana que vem será diferente”. Pouco tempo depois… mais recaídas sem fim. Exatamente como o vício, seja por alcoolismo, compulsão por consumo, comida, jogos ou qualquer coisa que nos ofereça alguma forma de prazer momentâneo. E, aí, alimentamos um ciclo vicioso de dor e prazer constantes, sucumbindo aos nossos sabotadores eternamente e perdendo de vista os nossos objetivos.

O que nos falta é substituir os ganhos secundários por melhores estratégias, estas que não comprometam os resultados esperados. Ao invés de passar fome e cortar tudo, aprender a equilibrar a alimentação e passar por uma reeducação alimentar. Ao invés de se matar na academia, procurar atividades físicas de maior interesse. E por aí vai. Perguntar-se sempre: “o que e como eu posso fazer para diminuir a dor que meu objetivo pode me causar, reduzir os ganhos imediatos e substituir por melhores práticas, estas que tragam os resultados que eu espero?”. Ter foco no longo prazo e nos ganhos que o resultado pode trazer, ter disciplina e buscar motivação diária e mudar os velhos hábitos. Pense sempre que está abrindo mão de seus objetivos, sonhos e metas quando se rende aos prazeres imediatos.

DEPOIMENTO

Falarei aqui de uma das coisas que mais testou minha persistência, paciência e autocontrole até hoje. Quando comecei a ler livros e fazer cursos online de desenvolvimento pessoal, além da minha formação em coaching, descobri que não só tinha talento e vocação, como paixão por uma nova carreira: a de escritora. De repente, tudo estava extremamente claro e eu sabia exatamente o que tinha que fazer – escrever um livro. Claro, uma coisa extremamente simples essa, aparentemente. Só que não. Comecei, evidentemente, com todo foco, energia e disposição, planejando sobre o conteúdo, a divisão de capítulos, o nome, a capa, a linguagem, a interação… A cada dia, uma avalanche de ideias, parecia estar criando mentalmente uma obra prima, o próximo best-seller. E isso durou alguns poucos dias. Logo eu estava enxergando as dores do prazer, ou seja, tudo de ruim que vinha junto com o fato de escrever um livro. Exigia dedicação, tempo, paciência, inspiração, criatividade, estudo, leitura, correção, pesquisa, foco, disciplina… Comecei a associar a algo desagradável e sacrificante, procrastinava e fazia de tudo para não escrever (sair, passear, assistir a filmes, etc.). Esqueci de pensar no mais importante, no resultado final e nos benefícios que eu ia poder ter: realização pessoal e profissional, reconhecimento, vitória de um desafio vencido e o mais importante – oportunidade de inspirar pessoas e receber um dos melhores presentes que alguém pode ganhar, a gratidão. Depois de quase um ano de enrolação com poucas páginas feitas e me sentindo terrível por isso, resolvi tomar vergonha na cara. Adotei novas estratégias, fui ajustando as metas semanais/mensais e definindo melhores prazos (de maneira que fosse possível cumprir). Criei o portal Projete Você para me motivar, passei a ler os capítulos com amigos e familiares para discutir e gerar ideias e o mais importante: dividi meu grande objetivo em pequenas metas e comemorei cada uma delas. Ao invés de pensar em como estava longe de eu terminar o livro, festejava a cada capítulo escrito, pensando sempre no resultado e como tudo valeria a pena! Fácil não foi, nem um pouco. Mas o que é a vida se não vencer diariamente nossos próprios desafios?

MINUTO DE REFLEXÃO

Quantas vezes você tem se rendido às facilidades dos ganhos imediatos? O que você tem feito hoje e a cada dia com consistência e persistência para se aproximar do que deseja? Um fato importante: não coloque a carroça na frente dos bois. Pensar em como você está longe de alcançar o objetivo é a forma mais fácil de aniquilar com ele. É preciso dividi-lo em pequenos passos e comemorar cada pequena conquista. Como já dizia o grande Peter Drucker: “Planejamento de longo prazo não lida com decisões futuras, mas com o futuro de decisões presentes“.

PRATIQUE! PEQUENO EXERCÍCIO

  1. Conscientização: Defina seus maiores objetivos e anote: (A) Motivadores do Prazer –  Quais os benefícios que você terá se atingir seu objetivo?; (B) Sabotadores do Prazer  –  Quais as dores que seu objetivo lhe causa? Do que você precisa abrir mão para atingi-lo?
  2. Reflexão: tente analisar e refletir sobre a situação. O que você poderia fazer para minimizar as dores? Que novas estratégias poderia adotar para que seu objetivo lhe afete positivamente? Que outros ganhos similares poderia usar para substituir os sabotadores e continuar no caminho rumo ao seu objetivo?
  3. Ação: Faça a lista de novas estratégias, crie um plano de ação, com metas e prazos definidos e comece a aplicar imediatamente.

MODELAGEM DE MINDSET

CRENÇAS LIMITANTES

  • “Sou movido(a) pelos prazeres e desejos imediatos”
  • “Eu gosto do caminho mais fácil, não tenho paciência de esperar”
  • “Eu não tenho disciplina, motivação, foco ou determinação”
  • “Caí na tentação só dessa vez, próxima vez será diferente”
  • “Alcançar esse objetivo é difícil, complicado e dá muito trabalho, não consigo”
  • “Prefiro viver o aqui e agora e aproveitar o que tiver vontade de fazer”
  • “Eu nem queria mesmo conseguir esse objetivo.. Para mim tanto faz…”

CRENÇAS PODEROSAS

  • “Eu não perco meus objetivos de vista, mantenho foco nos resultados de longo prazo”
  • “Eu divido meus objetivos em metas e comemoro cada pequena vitória em direção aos meus objetivos”
  • “Eu busco conhecer os ganhos imediatos (sabotadores) e costumo substituí-los por ganhos similares que não comprometem meus objetivos, e me trazem, ao mesmo tempo, fonte de motivação, inspiração e força de vontade para seguir adiante”
  • “Pergunto-me diariamente: o que posso fazer hoje, por mínimo que seja, para me levar um passo adiante em direção aos meus objetivos?”

 

IMAGEM por Freepick

TEXTO por RAQUEL RODRIGUES  © copyright Todos direitos reservados