“É próprio da natureza humana, lamentavelmente, sentir necessidade de culpar os outros por nossos desastres e desventuras”

Luigi Pirandello, poeta e romancista italiano, Nobel de Literatura

 

CULPAS E DESCULPAS

Uma das armadilhas que mais caímos com frequência é o jogo da culpa e da desculpa. Você conhece esse jogo? É um grande fator sabotador que nos impede de ser quem desejamos e de fazer o que queremos. Algo que escutei repetidas vezes, por todos os lados, ao longo de minha carreira acadêmica e profissional, e continuo escutando. Difícil mesmo é estar imune a essa armadilha. Eu mesma confesso que caí nela por várias vezes durante minha vida, e volta e meia ainda acabo tendo algumas recaídas. Bom, e o que sabemos? Durante o nosso desenvolvimento absorvemos hábitos como esponjas, estes que se solidificam de maneira tal que nem ao menos percebemos que os fazemos inconscientemente e nem nos damos conta do quão prejudiciais podem ser a nós mesmos e aos outros. Um destes hábitos é o de dar desculpas pelas coisas que não somos ou fazemos e arranjar culpados por tudo de negativo que acontece conosco ou ao nosso redor. Vejamos se você identifica algum tipo de padrão neste jogo.

AS FAMOSAS DESCULPAS

Temos uma pobre e medíocre mania entranhada em nosso ser de darmos desculpas a nós mesmos e às pessoas diariamente sem precisar de muito pretexto para isso. Isso é um fato. Mas acredite, essa atitude acaba nos custando muito caro. Ah, claro, tudo começa com aquelas pequenas situações banais. E, então, este teimoso hábito vai se enraizando de maneira tal que se torna um vício! Isso mesmo, um vício incansável de arranjar desculpas para tudo. Vamos analisar um cenário. Tive uma aluna, em especial, que me buscava sempre para dar uma desculpa. Se atrasava na aula, adivinhem? A culpa era do trânsito, do alagamento, do despertador, ou porque morava longe. Se tirava uma nota baixa, a culpa foi de um término de namoro, de um concurso que estava participando, de um projeto que se envolveu, ou seja lá do que for. Se não conseguia entregar um trabalho no prazo, foi por causa do filho ou da avó doente, por causa das outras disciplinas, porque cachorro comeu o trabalho e por aí vai. E a mais comum delas? Mas é claro! A mais famosa: “Não tive tempo!” (voltaremos a falar disso mais para frente, merece um tópico em especial). Acabamos usando essas e tantas outras desculpas o tempo todo para qualquer coisa. Eu tentava rebater, com que ela se questionasse, refletisse e mudasse o próprio discurso, e isso custou um pouco para acontecer. Continuando, veja bem: mas se saímos dessas situações banais e passamos a atribuir culpa aos outros e às circunstâncias para não fazer o que queremos/devemos na vida? E se passamos a dar desculpas para sustentar aquilo que não nos tornamos ou fizemos? Em resumo: e se esse hábito nos faz darmos desculpas a nós mesmos e acabamos boicotando nossos próprios objetivos, metas, aspirações, sonhos e desejos…?

ENCARANDO A REALIDADE

Isso mesmo, acabamos praticamos esse pobre hábito em todos os lugares e situações. No nosso trabalho, em casa… para nossa família, para nossos amigos e para quem quer que seja. Encontramos alguém na rua e já estamos lá vomitando desculpas. E lá vem por aí várias que muito usei e que tanto escutei. Se seu negócio não deu certo foi por causa da crise ou do sócio. Se não tentou/passou em um concurso público é porque estava muito concorrido. Se não escolheu a carreira dos seus sonhos é porque o mercado de trabalho da área era ruim. Se não conseguiu uma vaga de trabalho, é porque não tinha “um peixe” (uma indicação). Se não fez faculdade foi porque precisou cuidar do filho. E por aí vai. Muitas vezes, nós damos essas e tantas outras desculpas e acabamos por culpar qualquer fator com tanta repetição que nos convencemos disso de maneira tal que acabamos por desistir de fazer o que deveria ser feito. Afinal de contas, é como se tudo conspirasse contra nós mesmos e não pudéssemos fazer praticamente nada a respeito. Já parou para refletir sobre isso? É algo natural do ser humano, um mecanismo de defesa. O que tendemos a fazer é nos eximir da culpa, massagear nosso ego, não querer sentir o peso do fracasso, evitar assumir grandes responsabilidades dos nossos atos e comportamentos, não querer reconhecer erros e falhas e não querer ser julgado pelos outros. Afinal de contas, quem em plena e sã consciência gosta e sente bem com tudo isso? Aposto que praticamente ninguém. E é por isso que tudo se torna mais fácil culpando e dando desculpas. Mas ao mesmo tempo em que isso parece ser um alívio de consciência é também uma grande corrente amarrada em nos nossos pés, daquelas que carregam uma grande bola de ferro que mais parece pesar toneladas.

O JOGO “CULPA E DESCULPA”

O grande e terrível problema é quando estas desculpas e culpas nos imobilizam, nos impedem de agir e nos faz ficarmos presos no mesmo cenário – aquele exatamente oposto ao que projetamos para nós mesmos. Se pararmos para refletir, achamos desculpas e culpados muito facilmente para toda e qualquer coisa ou situação em nossas vidas. É claro! A culpa é sempre dos pais, do mercado, do dinheiro, da inflação, do chefe, do sócio, do professor, do governo, do funcionário, dos impostos, do cachorro, da falta de apoio. Da chuva, do clima, do tempo, da distância, do transporte ou seja lá do que for. Pense um pouco. É aí onde mora a armadilha. Culpar é atribuir poder a algo externo à nós, tanto às circunstâncias como às pessoas, fazendo com que tenhamos um postura defensiva, passiva e impotente diante dos outros e do mundo. É buscar fugir da responsabilidade de assumir que podemos exercer controle na nossa própria vida, justificar o que não fizemos/fazemos e nossa falta de atitude para mudar ou buscar soluções para nossos problemas e dificuldades, por pior que possam parecer.

Calma, não quis dizer que você é o único e exclusivo culpado de tudo que lhe acontece ou deixou de acontecer, longe de mim. Mas quero dizer que adotar a postura de procurar culpados o tempo todo para tudo é ficar cego quanto às possibilidades, às oportunidades e às mudanças. É desperdiçar seu potencial, apagar seu brilho e acabar com um futuro brilhante. Esse jogo é, na verdade, um grande atalho para continuar no caminho da estagnação, do retrocesso ou do fracasso. Sei que tudo isso pode ter gerado um certo desconforto em você. Na maneira como pus aqui, imagino que pode ter até discordado. Tudo bem, vamos lá. Você pode se “defender” dizendo que seu caso é diferente, específico, muito especial. Que ninguém além de você sabe o que passou na vida, que sua situação é muito complicada e difícil. Que a culpa não é nem nunca foi sua. Eu sei. E esse tipo de resposta é o que alimenta o ciclo vicioso da culpa e desculpa. Sabemos que não é algo fácil de se entender ou aceitar, eu mesma relutei muito contra isso durante muito tempo. Mexer com crenças, hábitos e mente nunca é uma tarefa trivial. Especialmente quando nossas convicções são impregnadas fortemente no nosso subconsciente.

RESPONSABILIDADE E CONSCIÊNCIA

O que posso dizer é que não é questão de certo ou errado, de justo ou injusto, privilégio ou desvantagem, riqueza ou pobreza, sorte ou azar, benção ou maldição, deficiência ou saúde. É questão de aproximar ou afastar você de se tornar a pessoa que deseja ser. Preste bem atenção: você não pode mudar as pessoas nem as situações que lhe aconteceram, mas tem o poder de mudar a maneira como encara tudo isso e reage diante da vida. Agir como se o problema estivesse em tudo e em todos, menos em você mesmo, faz com que você nunca precise buscar uma solução, alternativa ou caminho. Afinal, você termina, muitas vezes, esperando ou sonhando que um dia tudo mude, melhore e seja como você gostaria que fosse. E isso dificilmente acontece. O que temos que focar é no que possuímos hoje em termos de relacionamentos, recursos, habilidades, talentos, experiências, conhecimento… e como utilizar isso de maneira a gerar resultados positivos e alcançar nossos objetivos, independentemente de todas as dificuldades, mazelas, adversidades e obstáculos que de fato existam ou ainda que pareçam existir.

A melhor postura para se encarar a vida é sempre criar consciência e responsabilidade pelos próprios atos e resultados. Evitar ao máximo dar desculpas pelas coisas que não somos, não fazemos e não temos. Não importa o que aconteceu ou deixou de acontecer conosco. O que importa é o aqui e agora e o que podemos fazer a partir de hoje para mudar nossa realidade. Evitar culpar o que está externo a nós. Lembre-se que não podemos mudar as pessoas nem o que nos acontece, mas podemos mudar a maneira de como reagimos. Essa é a nossa responsabilidade. Ao invés de culpar a falta de tempo, o que podemos fazer é trabalhar para aprender a gerenciá-lo e priorizá-lo melhor. Ao invés de culpar a falta de oportunidade, devíamos trabalhar para criar um ambiente favorável para que ela possa aparecer em abundância. Ao invés de culpar o nosso parceiro, temos que olhar também para nós mesmos e nossas próprias atitudes e comportamentos nocivos e destrutivos que geram atrito e crise nas relações. Tenha uma coisa em mente: pessoas bem sucedidas em qualquer coisa que seja (vida amorosa, trabalho, família, etc.) não buscam culpados nem dão desculpas, elas arranjam uma solução, sejam sozinhas ou em parceria (a melhor opção).

DEPOIMENTO

Eu sempre quis empreender, era um desejo meu desde criança. Antes mesmo de terminar meu curso de administração, já havia feito vários projetos. Por um bom tempo, tive muitas ideias, mas que nem chegaram a sair do papel e me causavam enorme frustração. A minha principal desculpa era a falta de recursos. Os outros diziam: “como montará uma empresa se não tem dinheiro?”. Acabei criando uma crença limitante vinculando o fato de empreender a ter dinheiro, como se não tê-lo fosse impedimento suficiente para não realizar meu sonho. Veja a que nível chegava a minha cegueira. Aos vinte e poucos anos, decidi tentar um concurso público de nível médio – a última opção profissional que eu escolheria na vida (não por considerar ruim, mas por não se enquadrar no meu perfil) – e o meu plano era me matricular em um cursinho por 8 meses, estudar e me preparar para passar, ficar no cargo em torno de 5 a 10 anos para que eu pudesse juntar dinheiro e depois pedir exoneração para abrir meu negócio e ser finalmente feliz. Pare e pense. Quanto tempo eu perderia de minha vida tomando uma decisão contrária ao que gostaria de ser por conta de uma desculpa que me disseram, que eu inventei ou que acreditei? Hoje em dia o que não faltam são opções de negócio partindo do zero, basta uma busca na Internet. Naquele tempo, eu não sabia nem enxergava isso, das possibilidades, cega pelas crenças limitantes. Depois meses de cursinho e pesquisa, finalmente desisti desse plano maluco. Arranjar desculpas ou culpar algo ou alguém nunca vai lhe trazer benefícios. Entrar em ação sim. Se mudar somente isso, digo a você já terá resultados extraordinários. Que tal um teste?

MINUTO DE REFLEXÃO

Quantas desculpas você tem dado no seu dia a dia para você mesmo e para as pessoas ao seu redor? Essas atitudes tem gerado que tipo de resultados em sua vida? Quantas vezes você costuma sair culpando tudo e todos por seus fracassos e falhas ou por tudo de ruim, errado, negativo ou desagradável que lhe acontece? Identificar um culpado e não “poder fazer nada a respeito” tem lhe ajudado de alguma maneira? Deixo aqui uma reflexão, como diria Roberto Shinyashiki: “Quem quer fazer alguma coisa, encontra um MEIO. Quem não quer fazer nada, encontra uma DESCULPA”. 

PRATIQUE! PEQUENO EXERCÍCIO

  1. Conscientização: escreva agora e durante esta semana as desculpas que você dá atualmente para si e para os outros, no trabalho, em casa, etc. que mais lhe atrapalham ou lhe “impedem” de SER/FAZER o que deseja. Ponha também as culpas que você atribui aos outros e às circunstâncias.
  2. Reflexão: tente analisar, refletir e ressignificar cada uma delas. Questione cada uma delas, qual seu papel e como poderia encontrar uma solução. Para cada desculpa/culpa, anote possíveis soluções.
  3. Ação: comece a por em prática, não espere para depois. Durante essa semana, sempre que se pegar dando uma desculpa ou culpando algo ou alguém, pare imediatamente e mude de atitude.

MODELAGEM DE MINDSET

CRENÇAS LIMITANTES

  • “A culpa não foi/é minha… Eu não tive/tenho culpa”
  • “A culpa é/foi de__________”
  • “Eu não posso fazer nada… Isso não depende de mim…”
  • “Eu não sou/tenho/faço ________ porque________”

CRENÇAS PODEROSAS

  • “Eu tenho responsabilidade sobre meus atos e sobre minha vida”
  • “Eu sou capaz de mudar minha situação, depende mais de mim do que qualquer outra coisa ou pessoa”
  • “Não interessa de quem foi/é a culpa ou se alguém teve ou não culpa. O que importa é o que eu posso fazer a respeito”

 

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TEXTO por RAQUEL RODRIGUES  © copyright Todos direitos reservados