“Amanhã é quase sempre o dia mais ocupado da semana”

Ditado Popular Espanhol

 

A PROCRASTINAÇÃO

O amanhã” é aquele famoso dia em que jogamos tudo para ser feito, de uma maneira tão subjetiva e aleatória que parece nunca chegar. E não é que isso acontece mesmo? Lá vamos nós para uma das principais armadilhas que criamos e alimentamos: a procrastinação. Aquele velho hábito de adiar, demorar, deixar para depois, atrasar e retardar nossas ações pode terminar nos causando graves problemas. Sabemos o que temos que fazer, sabemos o que é importante, essencial ou necessário, mas mesmo assim nunca parece ser uma boa hora. Vivemos atarefados e sobrecarregados. Sentimos que precisamos fazer tudo e ao mesmo tempo sentimos que não fazemos quase nada do que deveríamos. E ainda nos cobramos e somos cobrados diariamente pelo nosso relapso, falta de disciplina, de atitude e de comprometimento com nossos objetivos, obrigações, tarefas e metas. Ufa… Quem não? A procrastinação, está sempre do nosso lado, como amiguinha inseparável. Amiga da onça, só pode. O amanhã sempre parece ser o dia mais propício para fazer qualquer coisa que seja, afinal, gostamos de jogar a preocupação para depois. É muito mais fácil, não é mesmo?

PROCRASTINAR: UM HÁBITO ALIMENTADO

Bom, comecemos. A palavra procrastinar vem do latim, procrastinatus, que quer dizer “à frente do amanhã”. Trata-se de um hábito e uma tendência natural humana, ligada intimamente à impulsividade, ao instinto de sobrevivência e à necessidade básica de receber gratificações imediatas. De uma forma ou de outra, somos todos seres procrastinadores. O grau em que isso afeta e atrapalha a nossa produtividade, rendimento, desempenho e resultados na vida pessoal e profissional é que pode ser considerado um problema. O quanto você tem procrastinado? E de que maneira isso tem lhe afetado? A verdade é que a procrastinação está por toda parte. Começa no nosso cotidiano doméstico: levantamos (depois de diversas “sonecas” sucessivas) quando estamos totalmente atrasados, lavamos a louça quando a pia está abarrotada, passamos roupa quando não temos o que vestir, arrumamos a casa quando vamos receber visita. Ela está nos cercando no nosso ambiente de estudo e trabalho. Deixamos para estudar de véspera, entregamos um relatório no último dia do prazo, fazemos uma tarefa quando recebemos uma cobrança. Persegue as nossas metas: o regime começa sempre na próxima segunda, a academia no mês que vem, um projeto que queremos fazer parte no outro semestre. E ainda piora. Deixamos para cuidar da saúde quando não a temos mais, pra guardar dinheiro quando precisamos dele, para valorizar as pessoas quando as perderemos, para viver a vida que sonhamos quando ela já passou.

É claro, a vida é muito curta para ser desperdiçada. Escutamos e repetimos sempre aquele velho ditado “nunca deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”. E parece que nunca aprendemos o recado. O nosso hábito procrastinador já é tão arraigado e interiorizado em nós, que acabamos por sabotar até mesmo os nossos sonhos. O “amanhã eu faço” nunca chega e aquele “um dia eu faço” acaba jamais existindo. Quando nos damos conta, o tempo se foi e acabamos adiamos o inadiável. Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa. Evitar fazer o que se precisa para alcançar o que se deseja é o caminho mais fácil para o fracasso. Sim, sim, já sabemos de tudo isso. Então, o que devemos fazer? Como nos livramos das amarras profundas do “deixar para depois”?Pois é. No final das contas, nos arrependemos muito mais é do que não fizemos. Não sabemos se rimos ou se nos desesperamos. Sofremos todos do mesmo mal, você e eu não somos os únicos nem seremos os primeiros a passarmos por isso. Primeiro é preciso conferir e entender os fatores que mais contribuem para a que a procrastinação se instale em nossas vidas. Depois, é preciso mudar a maneira de pensar e criar novos hábitos para driblar e minimizar esse nosso comportamento sabotador.

a) GRATIFICAÇÕES, PRAZERES IMEDIATOS E IMPULSIVIDADE

Temos uma tendência natural de fugirmos das nossas responsabilidades e obrigações, de evitarmos fazer o que não gostamos e o que consideramos chato, entediante, desagradável, burocrático ou irrelevante. Mas isso é óbvio. Queremos descanso, diversão, felicidade, lazer… As tarefas que não nos estimulam, que não nos despertam interesse, que não nos oferecem gratificações e existem apenas para cumprir tabela, essas são as últimas que faremos. Quando fazemos, e ainda a muito contra gosto. Somos seres impacientes e impulsivos, movidos e atraídos pelos prazeres imediatos. Além disso, pelo instinto de sobrevivência. Queremos benefícios para agora e tudo aquilo que se trata de um investimento a longo prazo também fica para depois. E quando não há uma motivação e um desejo muito forte por trás, então… A tendência maior é viver protelando sempre que possível. Além disso, evitamos ao máximo encarar o que parece ser muito desafiador, difícil, complexo e que exige trabalho árduo e dedicação nossa, algo que nos tira da zona de conforto. Temos dificuldade de construir sistemas de recompensas próprias para nos motivarmos, de valorizar nossos resultados obtidos e de vibrar com nossas pequenas conquistas. Precisamos buscar maneiras de criar estímulos e gatilhos mentais positivos para minimizarmos nossa impulsividade e maximizarmos nossa produtividade.

b) GESTÃO DE TEMPO: URGÊNCIAS X PRIORIDADES

Uma outro fator que nos afeta bastante é a dificuldade que temos em aprender a organizar e separar de forma sistemática o nosso tempo e as prioridades em nossas vidas. O que é considerado prioridade ou essencial são as tarefas, metas e atividades relacionadas e alinhadas com o desenvolvimento dos nossos objetivos pessoais e profissionais, ou seja, tudo aquilo que irá agregar, ampliar, maximizar e potencializar a nós mesmos. Depois de descobrir o que é importante se fazer, é preciso priorizar, definindo ordem de aplicação prática em função do que é mais viável (tempo, dinheiro, habilidades, ferramentas, etc.). Já as urgências estão ligadas intimamente ao caráter do tempo, aquilo que precisa ser feito de imediato e que exige resolução rápida. Perceba que o que é prioridade não é necessariamente urgente. E a nossa tendência, mais uma vez, é sempre deixar tudo para o último minuto do prazo, quando somos “obrigados” a fazer uma execução forçada. Assim, vivemos convivemos com uma sensação de estar apagando incêndios constantemente, além de colecionadores e acumuladores de pendências. Desde imprevistos que aparecem a pedidos que aceitamos, nunca estamos realmente livres das demandas que surgem e que podem surgir. Como, por exemplo, ter que remarcar uma consulta cancelada, consertar algo que quebrou, fazer um novo favor para alguém ou obrigações quaisquer, aquelas que querendo ou não nos sentimos obrigados a fazer. Um grande problema é o mal gerenciamento de tempo, achando que a produtividade é ocupá-lo por completo, fazendo mil coisas simultaneamente. E isso é uma outra crença limitante, é preciso saber dosar e separar tempo para classificar e organizar o que é urgente e prioridade, além de estabelecer prazos e estratégias adequadas para que seja possível cumprir o que se precisa. Um estratégia interessante é dividir as tarefas em blocos de tempo, onde seja dada devida atenção, exclusividade e foco na execução.

c) FOCO, DISTRAÇÕES E LADRÕES DE ATENÇÃO

Temos também um outro fator crucial de interferência. Quando temos algo para fazer, eis que surgem as distrações. Tudo parece vir ao nosso encontro despertando e roubando ferozmente a nossa atenção: conversas no celular, checagem de e-mails, um programa de televisão, episódio novo de uma série, comentários nas mídias sociais, convite para uma festa, abrir a geladeira e por aí vai. Com milhares de possibilidades, objetos de diversão, aparelhos eletrônicos e informações a que somos bombardeados hoje em dia, difícil é se manter centrado e com foco. Vivemos, atualmente, uma cultura da dispersão, com excesso e sobrecarga de tarefas e atividades que nos fazem sentir, muitas vezes, perdidos, cobrados, exaustos e com tensão constante. E aí perdemos nossa concentração facilmente, especialmente pela falta de foco, métodos, planejamentos, sistemas e ferramentas para criação de rotinas produtivas e desenvolvimento de autocontrole. Caímos na tentação de fazer primeiro o que parece ser mais divertido e sabotamos as atividades relacionadas aos nossos próprios objetivos. É importante aprender a lidar com as interferências externas durante a execução das atividades prioritárias, usando artifícios para estimular a concentração e bloquear a mente das distrações. Para isso, temos que criar um ambiente que seja propício e estimulante (música, limpeza, tranquilidade, organização, etc.).

d) PLANEJAMENTO: ESTABELECER E CUMPRIR PRAZOS

Vamos para outro aspecto, o hábito de não estabelecer prazos. E se o fazemos, trocamos os pés pelas mãos: além de não defini-los de maneira adequada de acordo com nosso ritmo e balanceado com as nossas necessidades, terminamos por não cumpri-los. Quase sempre a mesma história. Começamos com toda aquela garra e empolgação e metas altíssimas – o famoso “vou com tudo!”. Pouco tempo depois já estamos adiando e inventando mil desculpas. Quando vemos, já abandonamos por completo aquilo que deveríamos fazer a priori. A dificuldade em se criar uma rotina, com repetição, constância e disciplina para nossas metas e objetivos nos faz procrastinar e, consequentemente, fracassar. O maior problema é que não sabemos nem aprendemos a planejá-los, estruturá-los, revisá-los e aplicá-los de forma eficaz (que dê certo) e produtiva (renda melhor no menor tempo). Não somos preparados para pensar em planejamento e a nossa mente tem tendência a visualizar um pequeno horizonte temporal, voltado para o aqui e agora. Assim, se não estabelecemos nossas prioridades e prazos de maneira que sejam realistas, alcançáveis, específicos e mensuráveis, acabamos adiando e não os cumprindo. Ao invés de atacar com tudo, é preciso aprender a não dar passos maiores que as pernas e saber dividir o que precisa ser realizado em pequenas etapas, atacando prioridades por vez até que os hábitos já estejam estabelecidos.

e) PREGUIÇA, DESESTÍMULO E FUGA DAS COBRANÇAS

Ao mesmo tempo em que sentimos um certo alívio em deixar para depois tudo o que pudermos, como uma forma de adiar e fugir do problema, das cobranças e do sacrifício, sofremos uma enorme pressão interna e externa em decorrência deste adiamento. São aquelas vozes martelando na nossa mente diariamente, fazendo o favor de nos lembrar o que deveríamos ter feito e ainda não fizemos. As sensações ruins que a procrastinação podem causar são variadas: vão desde pensamentos negativos (culpa, cobrança, irritação, insegurança, estresse, baixa autoestima, vergonha, opressão, impotência e medo) até mesmo sensações físicas (enxaqueca, gastrite nervosa, falta de ar, crises alérgicas, ansiedade, entre outras). Em alguns casos mais graves, podem até mesmo ser desenvolvidos distúrbios como síndromes do pânico e depressão. Antes de atacar a procrastinação, é preciso descobrir as principais sensações negativas que pensamos e sentimos quando protelamos. Para, a partir daí, trabalhar diretamente na raiz do problema. No geral, criamos crenças limitantes e associamos a procrastinação à preguiça, ao relapso e à incompetência. E isso nos faz sentirmos ainda piores, já que nos vemos como desestimulados, indisciplinados ou displicentes. Na verdade, a procrastinação é apenas um mecanismo de defesa inconsciente contra sobrecarga de tarefas, atribuições e atividades, na busca por saciarmos nossas necessidades e instintos básicos. Desta forma, é impossível aniquilar a procrastinação. O que podemos fazer é entender como ela funciona, suas principais causas, descobrir os nossos principais impedimentos, questioná-los e adotar estratégias e ações que diminuam os seus impactos negativos.

f) DISCIPLINA, ROTINA E FORÇA DE VONTADE

Um outro fator é que desenvolvemos, ao longo do tempo, uma série de crenças limitantes em relação à disciplina e às rotinas. A primeira coisa é que pensamos que precisamos e devemos ser pessoas disciplinadas, nos cobramos e somos cobrados sempre disso. Mas associamos, inconscientemente, a coisas como: padrões, ordem, obediência, rigidez, normas, regras, limitação, escravidão, submissão e imposições. Consequentemente, somos tudo, menos disciplinados. A verdade seja dita, não é preciso viver uma vida com disciplina, mas é preciso ter disciplina apenas para cumprir objetivos e metas de vida. Existe uma grande diferença nestes dois cenários, é isso que temos que ter em mente. E esta disciplina se constrói por meio da criação e cultivo de novas rotinas e hábitos fortalecedores, eficientes e produtivos, levando em consideração uma série de fatores e características pessoais de cada indivíduo (perfil, personalidade, paixões, valores, entre outras.). Muitas vezes estabelecemos estratégias inadequadas, aquelas que não nos instigam, motivam, estimulam e recompensam. Tendemos a insistir no que não funciona e nos sabotam como uma forma de nos punir ou castigar pela nossa indisciplina. E isso nos faz ficarmos presos em ciclos viciosos de fuga dos compromissos e falta de comprometimento com nossas decisões. Às vezes, ao invés de usarmos uma agenda de papel, funcionamos melhor com lembretes no celular. Em vez de ir para academia todos os dias, podemos participar de uma atividade ao ar livre em grupo, como ciclismo, por exemplo. O que precisamos é ter mais flexibilidade, ousadia e criatividade para testar e aprimorar novas estratégias, de forma que nos sintamos bem com nossas escolhas e que, de quebra, nos ajudem a alcançar aquilo que tanto queremos. No início, tudo parece ser difícil e precisamos de muita força de vontade e determinação para construir um novo hábito ou rotina. Mas uma vez criados e instalados, torna-se um piloto automático, como escovar os dentes ou tomar banho. A rotina correta não prende, ela nos liberta. Não esqueça: “Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito” – Martin Luther King.

MINUTO DE REFLEXÃO

Deixe-me fazer uma pergunta. Qual foi o tempo que você separou, na sua rotina, para fazer algo que permita com que você chegue mais perto de quem deseja se tornar? Uma pequena coisa, por mínima que seja, que lhe faça dar um passo a mais em direção ao seus sonhos e objetivos pessoais e profissionais? E mesmo quando você separa, você trata esses passos com prioridade máxima? Pois é, acredito que não. Tendemos a deixar para depois logo aquilo que é o mais essencial, e caímos como um patinho em nossa própria armadilha. O que posso lhe dizer, sem mais delongas, é que o que lhe falta é uma atitude para começar hoje. Isso mesmo, agora, nesse exato instante. Faça uma pequena coisa, por mais simples que seja. E se pergunte todo dia: “o que eu posso fazer hoje para dar um passo adiante em direção aos meus objetivos?“. Tenha sempre uma coisa em mente: você será amanhã exatamente o que decidir fazer hoje.

PRATIQUE! PEQUENO EXERCÍCIO

  1. Conscientização: Quais são seus principais objetivos pessoais e profissionais hoje? O quanto você tem procrastinado cada um deles e qual impacto causam na sua vida?
  2. Reflexão: Que tipo de sensações você pensa e sente quando lembra que está procrastinando? O que mais tem lhe impedido e atrapalhado? Que novas ações você poderia adotar de maneira que tivesse mais estímulo, motivação e bem estar na execução dessas atividades? Como pode se livrar das distrações e gerar um ambiente mais propício para que você seja mais produtivo?
  3. Ação: De acordo com seus objetivos, defina as prioridades e quebre seu grande objetivo em pequenas metas alcançáveis, mensuráveis, específicas e realizáveis dentro de suas condições atuais. Estabeleça novas estratégias para driblar a procrastinação e estabeleça prazos e horários definidos para que sejam cumpridas.

MODELAGEM DE MINDSET

CRENÇAS LIMITANTES

  • “Eu não tenho disciplina nem autocontrole: sou relapso, desorganizado, displicente, irresponsável”
  • “Eu sou uma pessoa preguiçosa e procrastinadora, me culpo por isso”
  • “Eu deixo para fazer tudo em cima da hora, no último minuto, no fim do prazo”
  • “Amanhã eu faço / depois eu faço / vou deixar para semana que vem…”
  • “Eu me sinto culpado, inseguro, estressado, irritado, envergonhado e chateado com o fato de eu deixar tudo para depois”
  • “Eu não consigo lidar com rotinas, acho que me limitam, me prendem, me restringem, etc.”

CRENÇAS PODEROSAS

  • “Eu não preciso ter uma vida disciplina ou regrada, só preciso ter disciplina para fazer o que é realmente importante e essencial para que meus objetivos sejam cumpridos”
  • “Aceito que sou procrastinador, mas não vivo me lamentando. Busco sempre novos artifícios e estratégias para driblar e melhorar minha produtividade, meus resultados e meu desempenho”
  • “A rotina correta não me prende, ela me liberta. Busco sempre desenvolver hábitos fortalecedores e produtivos que me estimulam, me motivam e me fazem ter comprometimento”
  • “Procuro separar um horário para organizar e classificar minhas prioridades, planejando e traçando estratégias e prazos para que sejam cumpridas”

 

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TEXTO por RAQUEL RODRIGUES  © copyright Todos direitos reservados